Eu pensei em participar da blogagem coletiva "BATER EM CRIANÇA É COVARDIA", divulgada pela comunidade do Orkut Pediatria Radical.Depois dei uns tapas no Gabriel (porque ele bateu na Ana) e pensei que seria hipocrisia de minha parte.
Então fui ao Mamiferas, li os textos da Tata, da Kathy e da Kalu e resolvi tentar me libertar do "mal".
Para quem tiver paciencia de ler, peço que comente ao final.
Eu sou a irmã mais velha de cinco filhos. Minha mãe nunca trabalhou fora e meu pai, desde que eu me conheço por gente, sempre trabalhou na mesma empresa, até se aposentar. Ele foi guarda-porteiro por quase 30 anos, trabalhava em 3 horarios diferentes, e quase nunca participava da nossa vida em familia.
Os momentos com meu pai eram dois ou três por ano, numa ida à praia, ou ao clube do qual eramos sócios, e só.
Minha mãe, sempre considerei uma guerreira, dava conta de tudo sempre com muito zelo e ainda conseguia fazer um bico aqui e outro ali, para comprar-nos uma roupa, um sapato e doces, de vez em quando.
Nossa vida não era fácil, financeiramente falando, mas a gente teve a "liberdade" dos anos 80 de: brincar na rua, jogar bola descalço, brincar de taco, correr na chuva, soltar pipa, jogar bolinha de gude, entre outras brincadeiras, graças a minha mãe e meu tio Misael, que sempre estavam conosco! Quando meu pai estava em casa, tinhamos que brincar no quintal, sem fazer barulho, nem bagunça...
Eu não culpo meu pai pelos "métodos dele" de tentar nos proteger do "mal" de um bairro pobre e violento, mas ficaram feridas que custaram a cicatrizar, e eu acho que sou a menos traumatizada lá de casa...rsss
Como a mais velha, eu tinha sempre que ajudar e ser o exemplo, e se não fosse, eu pagava o preço de ter sido a primeira filha.
Eu até achava legal cuidar dos irmãozinhos, ser elogiada como a esperta, inteligente e madura, mas as cobranças definitivamente não eram legais...
Eu apanhei muito na infancia, mais da minha mãe do que do meu pai.
Apanhei de minha mãe de varinha de café, de chinelo, de "fio de ferro", dentre outras coisas, e era quase toda semana, geralmente por não cumprir as tarefas domesticas.
Do meu pai, apanhava de cinto de couro, de "porrada" e até de "sarrafo" de madeira aconteceu... Não vou citar todos os motivos, mas a do sarrafo foi porque rasguei um saquinho de amendoim de forma errada e derramou tudo no chão. Eu com medo de dizer a verdade, menti para não apanhar, e apanhei, obviamente, porque meu pai percebeu que eu estava mentindo.
Eu sempre achei justas as surras de minha mãe, porque antes de bater ela falava "mil vezes" comigo, então eu achava que ela estava na razão, mas com meu pai...
Não havia dialogo, não tinha conversa antes. Existiam as leis e pronto. Descumpriu as leis e o pai estava num dia de "cão" (era quase sempre por causa do trabalho), tome surra!
Poucas vezes eu apanhei do meu pai, mas eu lembro de cada surra, lembro mais do ódio no olhar do que da dor em si (aliás eu quase nunca sentia dor, o que doia mesmo era ver o ódio dele contra mim) e eu me lembro que sempre desejava que ele morresse nessas horas. Muitas vezes queria que minha mãe se separasse dele, ou que algum "bandido" o matasse ou sofresse um acidente. Certa vez, cheguei a fugir de casa por algumas horas.
A infancia passou, eu cresci acreditando que nunca ia bater nos meus filhos. Acreditava que isso seria bem fácil para mim, mas não é.
Primeiro - não é fácil porque eu prefiro dar uma chinelada do que ficar gritando histérica como muitas vezes minha mãe fazia (isso me traumatizou tanto que cheguei ao ponto de querer casar logo para me livrar dela)
Segundo - não é fácil porque eu "vejo" lógica em explicar e conversar bastante, e quando não há saida, mostrar quem é que manda e que existem limites, como minha mãe fazia.
Terceiro - não é fácil porque eu vejo uma evolução "na situação que eu vivia" e na que meus filhos vivem hoje, em vários aspectos. E acho que eu sou muuuuuuuito mais tolerante que meus pais.
Quarto - não é fácil porque, lá em casa, quem menos apanhou foram os mais rebeldes e coitadinhos, e hoje eles são os mais "perdidos" na vida.
Mas, eu sei, nada disso justifica, e escrevendo aqui, agora, vejo tudo de forma muito mais nebulosa do que via antes.
Não concordo mesmo com a violência doméstica e faço de tudo antes de dar um tapa (que dói mais em mim do que neles, eu acho) mas acho que o pior é demonstrar ódio por um filho que a gente tanto ama, no momento da explosão.
Eu não quero ser a mãe perfeita não, mas quero ser uma mãe melhor a cada dia sim, porque acredito que isso fará diferença no futuro dos meus filhos.
Não escrevi isso tudo para me fazer de coitada, mas para entender-me, e queria "ler" a visão de vocês sobre o assunto, suas experiências e opiniões sobre isso tudo.
Creio que me fará bem, vai me ajudar a evoluir, mudar para melhor.
Obrigada por lerem!
beijo